Tinha alguma coisa errada com o Guilherme. Desde quando era pequeno, 4
anos de idade, a mãe, Norma*, achava que ele não era uma criança
normal. O guri não tinha apego a nada, era frio, não obedecia a ninguém.
O problema ficou claro aos 9 anos. Guilherme, nome fictício de um rapaz
do Guarujá, litoral de São Paulo, que hoje tem 28 anos, roubava os
colegas da escola, os vizinhos e dinheiro em casa. Também passou a
expressar uma enorme capacidade de fazer os outros acreditar no que
inventava. Aos 18, o garoto conseguiu enganar uma construtora e comprar
um apartamento fiado. “Quando um primo da mesma idade morreu de repente,
ele só disse ‘que pena’ e continuou o que estava fazendo”, conta a mãe.
Tinha alguma coisa errada com o Guilherme.
Em busca de uma solução, Norma passou 15 anos rodando com o filho
entre psicólogos, psiquiatras, pediatras e até benzedeiros. Para todos,
ele não passava de um garoto normal, com vontades e birras comuns.
“Diziam que era mimo demais, que não soubemos impor limites.” Uma pista
para o problema do filho só apareceu em 2004. A mãe leu uma entrevista
sobre
psicopatia
e resolveu procurar psiquiatras especializados no assunto. Então
descobriu que o filho sofre da mesma doença de alguns assassinos em
série e também de certos políticos, líderes religiosos e executivos.
“Apenas confirmei o que já sabia sobre ele”, diz Norma. “Dói saber que
meu filho é um psicopata, mas pelo menos agora eu entendo que problema
ele tem.”
Guilherme não é um assassino como o Maníaco do Parque ou o Chico
Picadinho. Mas todos eles sofrem do mesmo problema: uma total ausência
de compaixão, nenhuma culpa pelo que fazem ou medo de serem pegos, além
de inteligência acima da média e habilidade para manipular quem está em
volta. A gente costuma chamar pessoas assim de monstros, gênios malignos
ou coisa que o valha. Mas para a Organização Mundial da Saúde (OMS),
eles têm uma doença, ou melhor, deficiência. O nome mais conhecido é
psicopatia, mas também se usam os termos sociopatia e transtorno de
personalidade anti-social.
Com um nome ou outro, não se trata de raridade. Entre os psiquiatras, há consenso quanto a estimativas surpreendentes sobre a
psicopatia.
“De 1% a 3% da população tem esse transtorno. Entre os presos, esse
índice chega a 20%”, afirma a psiquiatra forense Hilda Morana, do
Instituto de Medicina Social e de Criminologia do Estado de São Paulo
(Imesc). Isso significa que uma pessoa em cada 30 poderia ser
diagnosticada como psicopata. E que haveria até 5 milhões de pessoas
assim só no Brasil. Dessas, poucas seriam violentas. A maioria não
comete crimes, mas deixa as pessoas com quem convive desapontadas. “Eles
andam pela sociedade como predadores sociais, rachando famílias, se
aproveitando de pessoas vulneráveis e deixando carteiras vazias por onde
passam”, disse à SUPER o psicólogo canadense Robert Hare, professor da
Universidade da Colúmbia Britânica e um dos maiores especialistas no
assunto.
Os psicopatas que não são assassinos estão em escritórios por aí,
muitas vezes ganhando uma promoção atrás da outra enquanto puxam o
tapete de colegas. Também dá para encontrá-los de baciada entre
políticos que desviam dinheiro de merenda para suas contas bancárias,
entre médicos que deixam pacientes morrer por descaso, entre “amigos”
que pegam dinheiro emprestado e nunca devolvem... Lendo esta reportagem,
não se surpreenda se você achar que conhece algum. Certamente você já
conheceu.
Amigo da onça
O psicólogo Robert Hare tinha acabado de sair da faculdade, na década
de 1960, quando arranjou um emprego no presídio de Vancouver. Função:
atender os presos com problemas e montar diagnósticos de sanidade para
pedidos de condicional. Lá conheceu o simpático Ray, um dos presos. Era
um sujeito legal, contava histórias envolventes e tinha um sorriso que
deixava qualquer um confortável. Como o sujeito parecia aplicado e
dedicado a ter uma vida correta depois da prisão, o doutor resolveu
ajudá-lo em pedidos de transferência para trabalhos melhores na cadeia,
tipo a cozinha e a oficina mecânica. Os dois ficaram amigos. Mas Ray não
era o que parecia. Hare descobriu que o homem usava a cozinha para
produzir álcool e vender aos colegas. Os funcionários do presídio também
alertaram o psicólogo dizendo que ele não tinha sido o primeiro a ser
ludibriado pelo “gente boa” Ray. E que a falta de escrúpulos do preso
não tinha limites. Pouco depois, Hare sentiu isso na pele: teve os
freios de seu carro sabotados pelo “amigo” presidiário.
Ray não era único ali. Boa parte de seus colegas no presídio de
Vancouver era formada por sujeitos alegres, comunicativos e cheios de
amigos que também eram egocêntricos, sem remorso e não mudavam de
atitude nem depois de semanas na solitária. Nas prateleiras sobre
doenças mentais, havia várias descrições parecidas. O francês Philip
Pinel, um dos pais da psiquiatria, escreveu no século 18 sobre pessoas
que sofriam uma “loucura sem delírio”. Mas o primeiro estudo para valer
sobre
psicopatia
só viria em 1941, com o livro The Mask of Sanity (“A Máscara da
Sanidade”, sem tradução para o português), do psiquiatra americano
Hervey Cleckley. Ele dedica a obra a um problema “conhecido, mas
ignorado” e cita casos de pacientes com charme acima da média,
capacidade de convencer qualquer um e ausência de remorso. Com base
nesses estudos, Robert Hare passou 30 anos reunindo características
comuns de pessoas assim, até montar sua escala Hare, o método para
reconhecer psicopatas mais usado hoje.
Trata-se de um questionário com perguntas sobre a vida do sujeito, feito para investigar se ele tem traços de
psicopatia.
Seja como for, não é fácil identificar um. Psicopatas não têm crises
como doentes mentais: o transtorno é constante ao longo da vida. Outras
funções cerebrais, como a capacidade de raciocínio, não são afetadas.
Algumas características, no entanto, são evidentes.
Segredos e mentiras
Atributo número 1: mentir. Todo mundo mente, mas psicopatas fazem
isso o tempo todo, com todo mundo. Inclusive com eles mesmos. São
capazes de dizer “Já saltei de pára-quedas” e, logo depois, “Nunca andei
de avião”, sem achar que existe uma grande contradição aí. Espertos,
não se contentam só em dizer que são neurocirurgiões, por exemplo, sem
nunca ter completado o colegial: usam e abusam de termos técnicos das
profissões que fingem ter. Se o sujeito finge ser advogado, manda ver
nos “data venias” da vida. Se diz que estudou filosofia, vai encher o
vocabulário de expressões tipo “dialética kantiana” sem fazer idéia do
que isso significa. Sim, eles são profissionais da lorota.
“Depois que descobri as mentiras que ele me contou, passei um tempo
me perguntando como tinha sido tão burra para acreditar naquilo”, diz a
professora carioca Ana*. Há 9 anos, ela conheceu um cara incrível. Ele
dizia que, com apenas 27 anos, era diretor de uma grande companhia e
que, por causa disso, viajava sempre para os EUA e para a Europa.
Atencioso e encantador, Cláudio era o genro que toda sogra queria ter.
“Em 5 meses, a gente estava quase(casando. Então a mãe dele revelou que
era tudo mentira, que o filho era doente, enganava as pessoas desde
criança e passava por um tratamento psiquiátrico.”
Ana largou Cláudio e foi tocar a vida. Mas nem sempre quem passa
pelas mãos de um psicopata “pacífico” tem tempo para reorganizar as
coisas. Que o digam as pessoas que cruzaram o caminho de Alessandro
Marques Gonçalves. Formado em direito, ele resolveu fingir que era
médico. E levou esse delírio às últimas conseqüências: forjou documentos
e conseguiu trabalho em 3 grandes hospitais paulistas. Enganou
pacientes, chefes e até a mulher, que espera um filho dele e não fazia
idéia da fraude. Desmascarado em fevereiro de 2006, Alessandro aleijou
pelo menos 23 pessoas e é suspeito da morte de 3.
“Ele usa termos técnicos e fala com toda a naturalidade. Realmente
parece um médico”, diz o delegado André Ricardo Hauy, de Lins, que o
interrogou. “Também acha que não está fazendo nada de errado e diz,
friamente, que queria fazer o bem aos pacientes.” Quando foi preso,
Alessandro não escondeu a cabeça como os presos geralmente fazem:
deixou-se filmar à vontade.
“O diagnóstico de transtorno anti-social depende de um exame
detalhado, mas dá para perceber características de um psicopata nesse
falso médico. É que, além de mentir, ele mostra ausência de culpa”,
afirma o psiquiatra Antônio de Pádua Serafim, do Hospital das Clínicas
de São Paulo.
E esse é um atributo-chave da mente de um psicopata: cabeça fresca.
Nada deixa esses indivíduos com peso na consciência. Fazer coisas
erradas, todo mundo faz. Mas o que diferencia o psicopata do “todo
mundo” é que um erro não vai fazer com que ele sofra. Sempre vai ter uma
desculpa: “Um cara que matou 41 garotos no Maranhão, Francisco das
Chagas, disse que as vítimas queriam morrer”, conta Antônio Serafim.
Justamente por achar que não fazem nada de errado, eles repetem seus
erros. “Psicopatas reincidem 3 vezes mais que criminosos comuns”, afirma
Hilda Morana, que traduziu e adaptou a escala Hare para o Brasil. “Tem
mais: eles acham que são imunes a punições.” E isso vale em qualquer
situação. Até na hora de jogar baralho.
Foi o que mostrou o psicólogo americano Joe Newman num experimento em
1987. No laboratório, havia 4 montes de cartas. Sem que os jogadores
soubessem, um deles estava cheio de cartas premiadas. Ou seja: quem
escolhesse aquele monte ganhava mais dinheiro e continuava no jogo. Aos
poucos, porém, a quantidade de cartas boas rareava, até que, em vez de
dar vantagem, escolher aquele monte passava a dar prejuízo. Pessoas
comuns que participaram da
pesquisa
logo perceberam a mudança e deixaram de apostar nele. Psicopatas,
porém, seguiram tentando obter a recompensa anterior. “Pessoas comuns
mudam de estratégia quando não obtêm recompensa”, afirma o
neurocientista James Blair, autor do livro The Psychopath – Emotion and
the Brain (“O Psicopata – Emoção e o Cérebro”, sem edição brasileira).
“Mas crianças e adultos com tendências psicopáticas continuam a ação
mesmo sendo repetidamente punidos com a perda de pontos.”
Psicopatas não aprendem com punições. Não adianta dar palmadas neles.
Além disso, psicopata que se preze se orgulha de suas mancadas. Esse
sujeito pode ser o marido que trai a mulher e se gaba para os amigos. Ou
coisa pior. Veja o caso do promotor de eventos Michael Alig. Querido
por todos, ele difundiu a cultura clubber em Nova York, organizando
festas itinerantes. E em 1996 ele matou um amigo em casa. Quando o corpo
começou a feder, retalhou-o e jogou os pedaços no rio Hudson. Dias
depois, em um programa de TV, Alig simplesmente descreveu o assassinato,
todo pimpão. Os jornalistas acharam que era só uma brincadeira besta,
claro. Dias depois, a polícia achou o corpo do amigo de Alig no rio. Ele
foi condenado a 20 anos de prisão – sem perder a pose.
Isso é lugar-comum entre os psicopatas. O próprio psiquiatra Antônio
Serafim está acostumado com relatos grandiosos de carnificinas: “Quando
você pergunta sobre a destreza com que cometeram os crimes, eles contam
detalhes dos assassinatos, cheios de orgulho.”
Zumbis
Se você estivesse indo comprar cerveja perto de casa e se desse conta
que esqueceu a carteira, o que faria? Em vez de voltar para buscar
dinheiro, um psicopata da Califórnia preferiu catar um pedaço de pau,
bater num homem e levar o dinheiro dele. Também tem o caso de uma mulher
que deixou a filha de 5 anos ser estuprada pelo namorado. Perguntada
por que deixou aquilo acontecer, ela disse: “Eu não queria mais transar,
então deixei que ele fosse com a minha filha.”
Eis mais um traço psicopático. “Eles tratam as pessoas como coisas”,
afirma o psiquiatra Sérgio Paulo Rigonatti, do Instituto de Psiquiatria
do HC. Isso acontece porque eles simplesmente não assimilam emoções.
Para entender isso melhor, vamos dar um passeio pelo inferno.
Corpos decapitados, crianças esquálidas com moscas nos olhos,
torturas com eletrochoque, gemidos desesperados. Só de imaginar cenas
assim, a reação de pessoas comuns é ter alterações fisiológicas como
acelerar as batidas do coração, intensificar a atividade cerebral e
enrijecer os músculos. Em 2001, o psiquiatra Antônio Serafim colocou
presos de São Paulo para assistir a cenas assim. Cada um ouvia, por um
fone, sons desagradáveis, como gritos de desespero. “Os criminosos
comuns tiveram reações físicas de medo”, diz ele. “Já os identificados
como psicopatas não apresentaram sequer variação de batimento cardíaco.”
Mais: uma série de estudos do Instituto de Neurociência Cognitiva,
nos EUA, mostrou que psicopatas têm dificuldade em nomear expressões de
tristeza, medo e reprovação em imagens de rostos humanos. “Outros 3
estudos ligaram
psicopatia com a falta de nojo e problemas em reconhecer qualquer tipo de emoção na voz das pessoas”, afirma Blair.
É simples: assim como daltônicos não conseguem ver cores, psicopatas
são incapazes de enxergar emoções. Não as enxergam nem as sentem, pelo
menos não do mesmo jeito que os outros fazem. Em vez disso, eles só
teriam o que os psiquiatras chamam de proto-emoções – sensações de
prazer, euforia e dor menos intensas que o normal. “Isso impede os
psicopatas de se colocar no lugar dos outros”, diz Hilda Morana.
Um dos pacientes entrevistados por Hare confirma: “Quando assaltei um
banco, notei que uma caixa começou a tremer e a outra vomitou em cima
do dinheiro, mas não consigo entender por quê”, disse. “Na verdade, não
entendo o que as pessoas querem dizer com a palavra ‘medo’ ”.
No livro No Ventre da Besta – Cartas da Prisão, o escritor americano
Jack Abbott descreve com honestidade o que acontece na sua cabeça de
psicopata: “Existem emoções que eu só conheço de nome. Posso imaginar
que as tenho, mas na verdade nunca as senti”.
É como se eles entendessem a letra de uma canção, mas não a música.
Esse jeito asséptico de ver o mundo faz com que um psicopata consiga
mentir sem ficar nervoso, sacanear os outros sem sentir culpa e, em
casos extremos, retalhar um corpo com o mesmo sangue-frio de quem separa
as asinhas do peito de um frango assado.
Cérebros em curto
Ok, o problema central dos psicopatas é que eles não conseguem sentir
emoções. Mas por que isso acontece? “A crença de que tudo é causado por
famílias instáveis ou condições sociais pobres nos faz fingir que o
problema não existe”, afirma Hare.
Para a
neurologia, a coisa é mais objetiva: os “circuitos” do cérebro de um psicopata são fisicamente diferentes dos de uma pessoa normal. Uma
descoberta
importante foi feita pelo neuropsiquiatra Ricardo de Oliveira-Souza e
pelo neurologista Jorge Moll Neto, pesquisador do Instituto Nacional de
Distúrbios Neurológicos dos EUA. Em 2000, os dois identificaram, com
imagens de ressonância magnética, as partes do cérebro ativadas quando
as pessoas fazem julgamentos morais. Os participantes da
pesquisa
tiveram o cérebro mapeado enquanto decidiam se eram certas ou erradas
frases como “podemos ignorar a lei quando necessário” ou “todos têm o
direito de viver”, além de outras sem julgamento moral, como “pedras são
feitas de água”. A maioria dos voluntários ativou uma área bem na
testa, chamada Brodmann 10, ao responder às perguntas.
E aí vem o pulo-do-gato: a dupla repetiu o estudo em 2005 com pessoas
identificadas como psicopatas, e descobriu que elas ativam menos essa
parte do cérebro. Daí a incompetência que os sujeitos com transtorno
anti-social têm para sentir o que é certo e o que é errado. Agora, resta
saber se essas deficiências vêm escritas no DNA ou se surgem depois do
nascimento.
Hoje, se sabe que boa parte da estrutura cerebral se forma durante a
vida, sobretudo na infância. Mas cientistas buscam uma causa genética
porque a
psicopatia
parece surgir independentemente do contexto ou da educação. “Nascem
tantos psicopatas na Suécia ou na Finlândia quanto no Brasil”, afirma
Hilda Morana. “Os pais costumam se perguntar onde foi que erraram.” A
impressão é que psicopatas nasceram com o problema. “Eles também surgem
em famílias equilibradas, são irmãos de pessoas normais e deixam seus
pais perplexos”, afirma Oliveira-Souza.
James Blair vai pela mesma linha: “Estudos com pessoas da mesma famíla, gêmeos e filhos adotados indicam que o
comportamento dos psicopatas e as disfunções emocionais são coisas hereditárias”, afirma.
Cobras de terno
Mesmo quem defende uma origem 100% genética para a
psicopatia
não descarta a importância do ambiente. A criação, nessa história,
seria fundamental para determinar que tipo de psicopata um camarada com
tendência vai ser.
“Fatores sociais e práticas familiares influenciam no modo como o problema será expresso no
comportamento”,
afirma Rigonatti. Por exemplo: psicopatas que cresceram sofrendo ou
presenciando agressões teriam uma chance bem maior de usar sua
“habilidade” psicopática para matar pessoas.
Um bom exemplo desse tipo é o americano Charles Manson. Filho de uma
prostituta alcoólatra e dono de uma mente pra lá de sociopata,
transformou um punhado de hippies da Califórnia em um grupo paramilitar
fanático nos anos 70. Manson foi responsável pela carnificina na casa do
cineasta Roman Polanski. Entre os 5 mortos, estava a atriz Sharon Tate,
mulher do diretor e grávida de 8 meses. Detalhe: ele nem sequer
participou da ação. Só usou sua capacidade de liderança para convencer
um punhado de seguidores a realizar o massacre.
Já os que vêm de famílias equilibradas e viveram uma infância sem
grandes dramas teriam uma probabilidade maior de se transformar naqueles
que mentem, trapaceiam, roubam, mas não matam. Mais de 70% dos
psicopatas diagnosticados são desse grupo, mas não há motivo para
alívio. Psicopatas infiltrados na política, em igrejas ou em grandes
empresas podem fazer estragos ainda piores.
Exemplos não faltam. O político absurdamente corrupto que é adorado
por eleitores, cativa jornalistas durante entrevistas, não entra em
contradição nem parece sentir culpa por ter recheado suas contas
bancárias com dinheiro público é um. O líder religioso que enriquece à
custa de doações dos fiéis é outro. E por aí vai.
“Eles costumam se dar bem em ambientes pouco estruturados e com
pessoas vulneráveis. Agem como cartomantes, pais de santo, líderes
messiânicos”, afirma Oliveira-Souza. Psicopatas não tão fanáticos, mas
com a mesma falta de escrúpulos, também estão em grandes empresas,
sugando dinheiro e tornando a vida dos colegas um inferno.
A habilidade para mentir despudoradamente sem levantar suspeitas faz
com que eles se dêem bem já nas entrevistas de emprego. O charme que
eles simulam ajuda a conquistar a confiança dos chefes e a pressionar
para que colegas que atrapalham sua ascensão profissional acabem
demitidos. Não raro, costumam ocupar os cargos hierárquicos mais altos.
O psicólogo ocupacional Paul Babiak cita o exemplo de Dave, um
executivo de uma empresa americana de tecnologia. Logo na primeira
semana, o chefe notou que ele gastava mais tempo criando picuinhas entre
os funcionários do que trabalhando e plagiava relatórios sem medo de
ser pego. Quando o chefe recomendou sua demissão, Dave foi reclamar aos
chefes do seu chefe. Com sua lábia, conseguiu ficar dois anos na
empresa, sendo promovido duas vezes, até causar um rombo na firma e sua
máscara cair. “Certamente há mais psicopatas no mundo dos negócios que
na população em geral”, diz o psiquiatra Hare, que escreveu com Babiak o
livro Snakes in Suits – When Psychopaths Go to Work (“Cobras de Terno –
Quando Psicopatas vão Trabalhar”, inédito no Brasil). Para ele,
sociopatas corporativos são responsáveis por escândalos como o da Enron,
em 2002, quando a empresa americana mentiu sobre seus lucros para
bombar preços de ações. “O poder e o controle sobre os outros tornam
grandes empresas atraentes para os psicopatas”, diz.
O que fazer?
Seja nas empresas, nas ruas, ou numa casinha de sapê, nossos amigos
com transtorno anti-social são tecnicamente incapazes de frear seus
impulsos sacanas. Mas, para os psiquiatras, essa limitação não significa
que eles não devam ser responsabilizados pelo que fazem. “Psicopatas
têm plena consciência de que seus atos não são corretos”, afirma Hare.
“Apenas não dão muita importância para isso.” Se cometem crimes, então,
devem ir para a cadeia como os outros criminosos.
Só que até depois de presos psicopatas causam mais dores de cabeça
que a média dos criminosos. Na cadeia, tendem a se transformar em
líderes e agir no comando de rebeliões, por exemplo. “Mas nunca
aparecem. Eles sabem como manter suas fichas limpas e acabam saindo da
prisão mais cedo”, diz Antônio de Pádua Serafim.
Por conta disso, a psiquiatra forense Hilda Morana foi a Brasília em
2004 tentar convencer deputados a criar prisões especiais para
psicopatas. Conseguiu fazer a idéia virar um projeto de lei, que não foi
aprovado. Nas prisões brasileiras, não há procedimento de diagnóstico
de
psicopatia
para os presos que pedem redução da pena. “Países que aplicam o
diagnóstico têm a reincidência dos criminosos diminuída em dois terços,
já que mantêm mais psicopatas longe das ruas”, diz ela. Tampouco há
procedimentos para evitar que psicopatas entrem na polícia – uma
instituição teoricamente tão atraente para eles quanto as grandes
empresas. Também não há testes de
psicopatia
na hora de julgar se um preso pode partir para um regime semi-aberto.
Nas escolas, professores não estão preparados para reconhecer jovens com
o transtorno.
“Mesmo dentro da psiquiatria existe pouca gente interessada no
assunto, já que os psicopatas não se reconhecem como tal e dificilmente
vão mudar de
comportamento
durante a vida”, diz o psiquiatra João Augusto Figueiró, de São Paulo.
Também não existem tratamentos comprovados nem remédios que façam
efeito. Outro problema: quando levados a consultórios, os psicopatas
acabam ficando piores. Eles adquirem o vocabulário dos especialistas e
se munem de desculpas para justificar seu
comportamento
quando for necessário. Diante da falta de perspectiva de cura, quem
convive com psicopatas no dia-a-dia opta por vigiá-los o máximo
possível. É o que faz a dona-de-casa Norma, do Guarujá, com o filho
Guilherme. “Enquanto eu e o pai dele estivermos vivos, podemos tomar
conta”, diz. “Mas... e depois?”
Meu filho psicopata*
“Ele mentia muito. Armava um teatro para nos transformar em culpados.
Não tinha apego nem responsabilidade. Não evitava falar coisas que
deixassem os outros magoados. Nunca pensou que, se fizesse alguma coisa
ruim, os pais ficariam bravos. Na escola, ele não obedecia a ordens. Se
não queria fazer a lição, não tinha ninguém que o convencesse. A
inteligência dele até era acima da média, mas um mês ele tirava 10 em
tudo e no outro tirava 0. Dos 3 aos 25 anos, ele rodou comigo por
psicólogos. Foi uma busca insana. Começamos a tratar pensando que era
hiperatividade, ele tomou antidepressivos e outros remédios. Nada deu
certo. Pessoas como o meu filho conseguem manipular psicólogos com
facilidade. E os pais se tornam os grandes culpados. Quando descobri o
problema, com uma psiquiatra, foi uma luz para mim. Hoje sei que pessoas
como ele inventam um mundo na cabeça. É um sofrimento para os pais que
convivem com crianças ou com adultos assim. Hoje, temos que vigiá-lo e
carregá-lo pela mão para tudo que é canto. Senão, ele rouba coisas ou
arma histórias. Fica 3 meses em cada emprego e pára, diz que não está
bom. O problema nunca é com ele, sempre os outros é que estão errados.
Eu ainda torço para que tenha um remédio, porque viver assim é muito
ruim. Se está tudo bem agora, você não sabe qual vai ser a reação daqui a
5 minutos. É como uma bomba relógio, uma panela de pressão que vai
explodir. Nunca dá pra saber exatamente o que ele pensa nem para
acreditar em alguma coisa que ele promete. Às vezes penso que deveriam
criar uma sociedade paralela só para sociopatas, mas uns matariam os
outros, com certeza. Para não correr o risco de botar no mundo outra
pessoa dessas, convencemos nosso filho a fazer vasectomia. Dói muito
dizer que seu filho é um psicopata, mas fazer o quê? Matar você não
pode. Tem que ir convivendo na esperança de que um dia a medicina dê
conta de casos assim.”
*Depoimento de Norma, 50 anos, dona-de-casa do Guarujá (SP), mãe de Guilherme, 28, diagnosticado como psicopata.
As características de um psicopata
Charme
Tem facilidade em lidar com as palavras e convencer pessoas
vulneráveis. Por isso, torna-se líder com freqüência. Seja na cadeia,
seja em multinacionais.
Inteligência
O QI costuma ser maior que o da média: alguns conseguem se passar por médico ou advogado sem nunca ter acabado o colegial.
Ausência de culpa
Não se arrepende nem têm dor na consciência. É mestre em botar a
culpa nos outros por qualquer coisa. Tem certeza de que nunca erra.
Espírito sonhador
Vive com a cabeça nas nuvens. Mesmo se a situação do sujeito estiver
miserável, ele só fala sobre as glórias que o futuro lhe reserva.
Habilidade para mentir
Não vê diferença entre sinceridade e falsidade. É capaz de contar qualquer lorota como se fosse a verdade mais cristalina.
Egoísmo
Faz suas próprias leis. Não entende o que significa “bem comum”. Se
estiver tudo ok para ele, não interessa como está o resto do mundo.
Frieza
Não reage ao ver alguém chorando e termina relacionamentos sem dar
explicação. Sabe o cara que “foi comprar cigarro e nunca mais voltou?”
Então.
Parasitismo
Quando consegue a confiança de alguém, suga até a medula. O mais comum é
pedir dinheiro emprestado e deixar para pagar no dia 31 de fevereiro